Z é um filme político como todos o são, diria Costa-Gavras. Ele mesmo argumenta, em sua recente passagem pelo Brasil, em uma entrevista à Folha de São Paulo, que “como dizia [o escritor e semiólogo francês] Roland Barthes, todos os filmes são políticos ou podemos analisá-los politicamente”. Não há o que negar e nem é interessante aqui discutir a afirmação; também não se pode refutar, porém, que o tema é o grande paradigma na cinematografia do diretor, que filmou, dentre outros,
A Confissão (1970),
Estado de Sítio (1973) e
Amém (2002), filmes de alto teor político. O que se mostra importante em
Z (França, 1969), ganhador de 2 Oscars além de nove outros prêmios e considerado a obra-prima do cineasta, é ir além da óbvia constatação de sua função política. “Todo cinema é político, mas também espetáculo”, diria Costa-Gavras. Torna-se significativo, então, analisar com quais artifícios a temática é construída, de quais instrumentos do espetáculo cinema Costa-Gavras faz uso para penetrar nas entranhas de assunto tão espinhoso, e como as opções do diretor deixam clara sua convicção, ou seja, qual seu “lado” na questão do filme.

A fita, que chegou a ser proibida no Brasil quando foi lançada, é inspirada no romance homônimo do escritor grego Vassilis Vassilikos e no regime militar ocorrido na Grécia nos anos 60. Z conta a história de um crime político, o assassinato, pelas mãos dos primos Vago e Yago, de um popular deputado de esquerda durante uma manifestação e sua investigação por parte de um juiz (que no filme age como um promotor, nos moldes brasileiros) enquanto as forças armadas fazem de tudo para encobrir o fato e os verdadeiros culpados. Com estilo simples e direto, de narrativa predominantemente clássica, Costa-Gavras costura sua trama sem ambigüidades significativas para o enredo. As escolhas do filme são tão absolutas, que não há como não supor refletirem o posicionamento do próprio diretor diante da problemática do filme. À medida que a história se desenrola, fica claro não só o que está acontecendo, mas também o lugar de fala e papel que cada personagem desempenhará no decorrer da película.
A construção dos lados antagônicos ocorre de forma muito bem delineada, como raramente acontece no jogo político real. O diretor constrói seu filme quase como um jogo entre duas equipes. Do “lado do bem”, e o maniqueísmo, nesse caso, não é reducionista, o deputado, cujas qualidades - “ex-campeão olímpico, médico, professor universitário e político honesto” - não tardam a serem enumeradas por outro personagem importante, o jornalista, oportunista, mas também honesto e comprometido com o fato, acima de tudo, custe o que custar (negativamente falando, inclusive, mas o que não chega a abalar sua moral), além dos companheiros políticos do deputado, todos bons moços de carteirinha, cara limpa e dispostos a tudo para defender seu líder e sua causa. Do “lado do mal”, vale a mesma ressalva anterior, um bando de militares com rompantes de megalomania, discurso claramente fascista e antiquado, majoritariamente de bigodes ou carecas (uma delas mostrada em primeiríssimo plano logo no começo), ou homens humildes, grosseiros e manobráveis, sem muitos escrúpulos, dentre eles Yago, um dos personagens de mais destaque, um cínico psicopata, pedófilo e repugnante. Essa distinção facilita para o espectador não só o entendimento do enredo, mas também indica logo de cara para qual lado deve-se dirigir a torcida.
“Ninguém vai ver um filme como quem vai ter uma aula na universidade ou ouvir um discurso num comício político. As pessoas vão para amar, odiar, chorar etc., sentimentos importantes que definem a nossa vida.”, diz Costa-Gavras na já referida entrevista. E, para além dos personagens, os demais aspectos de
Z são construídos para levar o espectador exatamente onde deseja o diretor, a sentir e a tomar partido. Não através de truques banais, mas por um trabalho orquestral que segue um propósito em nenhum momento disfarçado, em que as reviravoltas surgem naturalmente enquanto o fato em si, mas ganham proporções maiores através do uso do suspense e da ação. Assim sendo, a trilha sonora, apesar de econômica, entra sempre em momentos pontuais, como a perseguição de um partidário do deputado por um carro que tenta atropelá-lo ou a tensão da luta entre Yago e outro dos partidários do deputado, na carroceria de uma caminhonete, dirigida por Vago, o outro comparsa, logo depois do crime, momento em que a luz também varia, entre claros e escuros, aumentando ainda mais a ansiedade, apesar de manter-se bem realista em grande parto do filme, privilegiando a luz difusa.
Os maiores esmeros estéticos e fugas do convencional, não necessariamente conjugados, ficam por conta da montagem e dos planos, e da construção peculiar, entre os personagens, da figura do juiz. Em primeiro lugar, a montagem faz uso de alguns flash backs, em forma de lembranças, que entram em cena sem preparação e que não causam nada além de leves suspeitas e ambigüidades sobre a vida pessoal do deputado, mas se revelam, no entanto, insignificantes no decorrer da trama. Além disso, no começo, privilegia personagens que ficam em segundo plano com o desenrolar dos fatos, talvez sugestionando que, à parte a importante divisão entre bem e mal, todos são apenas peças iguais, sujeitos a tudo dentro do jogo político. No que diz respeito aos planos, em muitos momentos eles querem dizer algo mais que a simples enumeração de temas necessários à narrativa, significando através do enquadramento e dos movimentos, jogando junto com a música e montagem. Um exemplo é o início, em que as diversas insígnias dos militares em primeiríssimo plano servem aos créditos iniciais e parecem prenunciar a força dos métodos fascistas de controle da situação e do poder, independentemente do que vier.
O grande momento do filme, entretanto, vem sendo forjado desde o início, com a aparição do juiz quase despercebido logo no décimo minuto de filme, na cena em que os partidários do deputado vão ao Procurador em busca de defesa contra ameaças à vida do político. O personagem que chega aparentemente sem nenhuma importância no espaço fílmico e some até reaparecer para tomar conta da apuração do crime é a grande sacada de Cost-Gavras, até o seu desembocar na sequência mais espetacular e magistral , a da intimação dos envolvidos. A frieza e racionalidade com a qual o juiz é arquitetado, cuja feição e autoridade são inabaláveis, e a condução da investigação indubitavelmente insuspeita, faz que ele represente quase que a justiça personificada. Numa extrapolação mais subjetiva, até mesmo seus inseparáveis óculos, levemente escuros, remetem à venda, que representa a isenção e a imparcialidade, na estátua da justiça. Apesar de todo tipo de barreiras que são criadas à investigação e ao cabo dela, o juiz, que não tem nome, como a maioria dos personagens que têm funções institucionais, vai até o fim e indicia um por um dos acusados.
Após o indiciamento dos “peixes pequenos”, cada militar entra no tribunal com um plano fechado em suas insígnias e à medida que andam, tentando manter a pose, mesmo que claramente acuados, a câmera faz um movimento para trás, mostrando o advogado que acompanha cada um e a pequena multidão de fotojornalistas tirando fotos. Ao sentarem à mesa do juiz, cara a cara com a justiça, uns ameaçam suicídio, berram, esperneiam, mas ouvem apenas uma pergunta: “nome e sobrenome?”, além do indiciamento. É nesse momento em montagem, planos e música unem-se de forma mais simbólica, num ritmo frenético em que a máquina de escrever e seu barulho característico ganham cena

e formam com a música uma só sinfonia, quase um videoclipe em que se alternam planos do juiz, da máquina, dos militares e dos jornalistas. Sem contar na piada, no momento em que o juiz indica uma porta supostamente alternativa aos militares, para que não voltem a passar pelos jornalistas durante a saída, mas que, em verdade, também está fechada, obrigando-os a voltar por onde entraram, a passarem novamente pelos flashes e exposição pública. É quando Costa-Gavras lava a própria alma e a de quem o assiste.
Apesar da pequena vingança, o diretor não doura a pílula mais que os limites da realidade na qual acredita. O filme se encerra com penas brandas aos culpados e com a tomada de poder por parte dos militares, que da morte ao exílio acaba com um por um dos “combatentes” do bem e sanciona o cerceamento total de liberdade. Sem abrir mão das possibilidades que o cinema – inclusive e principalmente o de espetáculo – oferece, Costa-Gavras dá, com sua premiada obra-prima, mais um passo em sua luta política, honesta e aberta na predileção pelo tema e pela forma clara de tratá-lo. “A revolução social vai depender de seus líderes, da capacidade de impor suas ideias e de como cada um vai reagir a elas”, disse também à Folha. No cinema que Costa-Gavras faz em
Z (que significa ele vive), não há dúvidas sobre quais são as armas e métodos do combatente, e que a liberdade é não apenas meta, mas também caminho, independentemente de rótulos ou julgamentos.