sábado, 13 de agosto de 2011

Te Prende e Te Assalta

Te prende e te assalta. Metaforicamente, que fique claro. Mas o que são as metáforas senão algo para que o que te digo você sinta da forma mais palpável possível? ("figuras de linguagem", não é assim que são chamadas?!). Mas deixemos de delongas, vamos perto ao ponto.

O ponto de que falo é o bar Farol do Rio Vermelho, ali mesmo, no Rio Vermelho, veja que coincidência. Escrevo este texto hoje porque ontem estive lá, e é para falar de como me senti quando senti fome. Pois bem, pouco menos de uma hora no local, senti fome, tudo normal. Tinha saído direto do trabalho, passado no cinema, até então sem comer nada sério. Enfim, senti fome, dentro do bar Farol do Rio Vermelho.

Quando vou olhar o cardápio, na esperança de comer bem, matar minha fome, pagar um preço justo, o cano do revólver veio na minha cabeça (metaforicamente, gente, metaforicamente): se não me engano, a porção mais barata - pois só tinha porção - era a de batata frita, a R$ 15, preço que já considero salgadinho, a não ser que venha muita batata, para equilibrar. Perguntei se tinha - porque em Salvador é assim: a realidade do cardápio é quase sempre muito distante da realidade da cozinha - e não tinha a batatinha.

Fui então aos bolinhos. Seis bolinhos, apenas 6 bolinhos!, por R$ 16 (lembre que com R$ 16 reais você come uma promoção do McDonalds, e o preço é apenas razoável, visto que se acha lanche "também" de "qualidade" ainda mais barato). Ok, pedi os bolinhos. 

E o que eu recebo? Os bolinhos, é, os bolinhos mesmo!, minúsculos!, ocos!, seis, seis bolinhos, sambando num pires médio! Meio queimadinhos! 

Mas vamos ao que realmente interessa: eu só comprei esses injustos bolinhos porque eu estava com muita fome e não podia sair do bar para comer fora, ou não poderia mais voltar para dentro. Ou seja, eu fui "obrigado" a comer lá dentro, afinal de contas, não iria sair, depois de ter pagado R$ 15 a entrada, para comer fora e não voltar mais, visto que estava no primeiro de três shows.

E, quando eu tenho fome, o que o estabelecimento me oferece? Comida boa a um bom preço, para me satisfazer, eu que sou cliente (e tenho até "sempre razão")? Me parece razoável, até óbvio, mas não foi o que eu tive à disposição. Como vocês já leram, e eu faço questão de que leiam de novo: 6 bolinhos de charque minúsculos e ocos, meio queimadinhos, ao absurdo preço de R$ 16! Afinal de contas, pra quê um produto de qualidade, a um preço justo, se eu só poderia comer ali mesmo?! Em Salvador, a maioria das boates opera nessa lógica: te prende e te assalta.

A impressão que eu tenho é que investem em uma boate pensando em recuperar o dinheiro em um ano, "lesando" os clientes com lógicas como esta, para não falar no preço da long neck. O que não percebem é que você investe em uma bar/boate/o que seja para que dure uma vida toda, portanto esse retorno ao investimento não virá de uma hora para outra, e se vendessem tudo a um preço mais justo, ganhariam muito mais na quantidade e na satisfação do freguês.  

Mas, pra encerrar a ladainha, que fiquem claras algumas coisas, pra não dizerem depois que fui injusto:

1) Esse não é um problema localizado, só do Farol. Infelizmente, atinge a grande maioria dos bares e boates de Salvador que, invariavelmente, vivem fechando e abrindo as portas (porque será???);
2) Tirando esse DETALHE, o Farol do Rio Vermelho, que conheci ontem, é um espaço muito bom, amplo, com uma área aberta massa, som de qualidade, limpeza, boa programação. Enfim, tem quase tudo pra dar certo;
3) Não aceito o argumento de que eu entrei no local e comi porque quis, que ninguém me obrigou a nada. Essa provavelmente é a lógica dos empresários, que eu refuto logo de cara: as coisas tem que ter um preço justo, e o local não é nenhum local de luxo, para possivelmente justificar isso. Os bolinhos de menos luxo ainda;
4) Tô meio brabo, mas é uma crítica construtiva, acima de tudo. Torço muito pra que a noite de Salvador dê certo, com boas casas, bom atendimento e comida e bebida de qualidade. Por isso mesmo creio que aceitar este tipo de coisa seja não cooperar.
5) Talvez hoje eu ainda volte lá, mas muito bem alimentado e só pela festa, A Bolha, que me disseram que é muito bacana e, pelos envolvidos, tá acreditado;
6) Eu já falei que "Te prede e te assalta" é uma metáfora?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Uma entrevista genial

Uma aula de ciência e bom-senso. Só faltam os ouvidos prestarem atenção. Leia a entrevista na íntegra aqui.


Miguel Nicolelis é pioneiro nos estudos sobre interface cérebro-máquina, suas descobertas aparecem na lista das dez tecnologias que devem mudar o mundo, divulgada em 2001 pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Em 2009, tornou-se o primeiro brasileiro a merecer uma capa da Science. Na quarta-feira, foi nomeado membro da Pontifícia Academia de Ciências, no Vaticano.


O Estado de S. Paulo: Você afirmou diversas vezes que a ciência precisa ser democratizada no país.

M.N.: Sem dúvida. É uma atividade extremamente elitizada. Não temos a penetração popular adequada nas universidades. Quantos doutores são índios ou negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira. Essa foi uma das razões que me motivaram a escrever o manifesto. Até bem pouco tempo, a ciência era uma atividade da aristocracia brasileira. Há 30 ou 40 anos só a classe mais alta tinha acesso à universidade. Não precisavam de financiamento porque tinham dinheiro próprio.

Hoje, nós precisamos de cientista que joga futebol na praia de Boa Viagem. Precisamos do moleque que está na escola pública. As crianças precisam ter acesso à educação científica, à iniciação científica. O que também implica uma democratização na distribuição de oportunidades e recursos em todo o país. Estamos trabalhando com 21 crianças da periferia de Natal. Elas nem mesmo entraram no ensino médio e já estão sendo incorporadas às linhas de produção de ciência do nosso instituto. Quatro participaram de um projeto piloto em que aprenderam a usar ressonância nuclear magnética de bancada para medir o volume de óleo nas sementes do pinhão-manso do semi-árido nordestino. E classificaram as diferentes sementes de acordo com a quantidade de óleo. Duvido que exista algum técnico na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) melhor do que essas crianças.

Não precisamos mais de caciques. Precisamos de índios. Devemos investir na massificação dos talentos. Esses moleques vão decidir o que vai ser a nossa ciência. Se chega um jovem muito talentoso que quer investigar besouro, devemos responder: “Está bom, filho. Vai pesquisar besouro.” Eu não investiria em tópicos, em áreas específicas. Eu investiria primordialmente em gente. Porque se você investir em pessoas talentosas, elas encontrarão nichos em que o Brasil terá benefícios tremendos. Nós temos uma das maiores olimpíadas de matemática do mundo, o que comprova que nosso talento matemático é enorme. Mas não dá frutos porque faltam caminhos, oportunidades, veículos…

Acreditamos que devemos escolher o melhor menino. Mas e os outros cem mil que quase ganharam? Precisam de incentivo para continuar. Por isso, eu proponho o bolsa-ciência. É um bolsa-família para garoto que tem talento científico. Não precisa ser gênio. Estou fazendo isso com esses 21 meninos. Os quatro garotos do pinhão-manso recebem mais dinheiro do que o pai e a mãe: uma bolsa de R$ 520 paga por doadores privados. Precisamos investir no caos que é o sistema nervoso. Desta forma, encontraremos caminhos imprevistos, surpresas agradáveis.

Mais aqui (outra entrevista, em vídeo, porém mais antiga)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Coisa de Português

Interrompemos essa breve/longa pausa para falar de um assunto extraordinário.
Estava eu eu eu lendo um livro enquanto esperava o funcionário de uma repartição pública chegar para que eu pudesse pegar meu registro profissional (de jornalista, para o qual eu estudei quatro anos e meio, mas a senhora que me atendeu - o outro profissional não chegou - disse-me algo óbvio para o qual eu não havia atentado - tenho deficiência para as coisas óbvias: qualquer um pode ter um registro profissional de jornalista, ainda que seja iletrado).
Estava eu lendo esse livro, quando chegou um casal e sentou ao meu lado. Ela, grávida. Ele, mais perto de mim. Comentou algo do horário etc. Uma bolsa de bebê, numa cadeira vazia, nos separava. Ele olhava meio curioso, depois de uma pausa, depois do breve bate-papo, do qual sai para cair novamente no livro. A pergunta: "vc é mulçumano?" (olhar curioso, mais para simpático). Eu achei engraçado: "nããão... por causa da barba, né?", disse, pegando em minhas já bem proeminentes madeixas de bochecas. "E o livro, escrito Cairo", ele completou. Era verdade. Tem Cairo escrito no fundo da capa do livro. Mas há também uma foto de Napoleão e um passarinho pequeno com corpo de gente. Mas ele chegou à conclusão de que eu seria um provável mulçumano. É claro, tá cheio deles por aí. Barbudos e planejando ataques a criancinhas. Ou sonhando no dia que explodirá e terá seus zilhões de pedacinhos catados pelas boquinhas vermelhas de 40 virgens. O engraçado, no entanto, é que ele não parecia ter me olhado com medo ou desprezo. Era um olhar mesmo de simpatizante. Talvez ainda haja esperança para os árabes mulçumanos. Talvez ainda haja uma galera que consiga separar sua idéia das palavras assassinos etc. Ainda que os identifique pelas barbas (e Cairo, uma forte evidêndia). Talvez ainda tenha gente que resolva resolver a suspeita com uma pesquisa, e descobrir que se escreve muçuLmano, e não com o L depois do mu - leia atrás e verá. Afinal de contas, nem todo muçulmano é o muçulmano da TV. A TV é uma caixinha que recorta a realidade pra deixar ela mais facinha (e erradinha, na maioria das vezes). Ou talvez seja tudo isso besteira minha, essa coisa de caça aos islâmicos. E se eu tivesse só de bigode + a camisa do Vasco que eu vestia, ele perguntaria: "vc é português?". Ele é que era um perguntador nato, com aquele olhar curioso retado.


PS.: A TV e os jornais, de um modo geral.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O Mundo: Um Enorme Viveiro


Trecho dessa entrevista, com o antropólogo Viveiros de Castro.

§

O senhor poderia apresentar-nos o conceito do perspectivismo indígena?


Esse é um assunto sobre o qual hesito um pouco em falar, porque o termo “perspectivismo indígena” se tornou excessivamente popular no meio antropológico, e a ideia que ele designa começa a sofrer o que sofre toda ideia que se difunde muito e rapidamente: banalização, de um lado, despeito, de outro. Passa a servir para tudo, ou a não servir para nada. De qualquer forma, não fui eu quem inventou sozinho a teoria do perspectivismo indígena; foi um trabalho de grupo, em que se destaca a colaboração formativa que mantive com minha colega Tânia Stolze Lima. Tomamos emprestado do vocabulário filosófico esse termo de perspectivismo para qualificar um aspecto marcante de várias, senão de todas, as culturas nativas do Novo Mundo. Trata–se da noção de que o mundo é povoado por um número indefinidamente indeterminado de espécies de seres dotadas de consciência e cultura. Isso está associado à ideia de que a forma manifesta de cada espécie é uma “roupa” que oculta uma forma interna humanoide, normalmente visível apenas aos olhos da própria espécie ou de certos seres transespecíficos, como os xamãs. Até aqui, nada de muito característico: a ideia de que a espécie humana não é um caso à parte dentro da criação, e de que há mais gente, mais pessoas no céu e na terra do que sonham nossas antropologias, é muito difundida entre as culturas tradicionais de todo o planeta.
O que distingue as cosmologias ameríndias é um desenvolvimento sui generis dessa ideia, a saber, a afirmação de que cada uma dessas espécies é dotada de um ponto de vista singular, ou melhor, é constituída como um ponto de vista singular. Assim, o modo como os seres humanos veem os animais e outras gentes do universo – deuses, espíritos, mortos, plantas, objetos e artefatos – é diferente do modo como esses seres veem os humanos e veem a si mesmos. Cada espécie de ser, a começar pela nossa própria espécie, vê-se a si mesma como humana. Assim, as onças, por exemplo, se veem como gente: cada onça individual vê a si mesma e a seus semelhantes como seres humanos, organismos anatômica e funcionalmente idênticos aos nossos. Além disso, cada tipo de ser vê certos elementos-chave de seu ambiente como se fossem objetos culturalmente elaborados: o sangue dos animais que matam é visto pelas onças como cerveja de mandioca, o barreiro em que se espojam as antas é visto como uma grande casa cerimonial, os grilos que os espectros dos mortos comem são vistos por estes como peixes assados etc. Em contrapartida, os animais não veem os humanos como humanos. As onças, assim, nos veem como animais de caça: porcos selvagens, por exemplo. É por isso que as onças nos atacam e devoram, pois todo ser humano que se preza aprecia a carne de porco selvagem. Quanto aos porcos selvagens (isto é, aqueles seres que vemos como porcos selvagens), estes também se veem como humanos, vendo, por exemplo, as frutas silvestres que comem como se fossem plantas cultivadas, enquanto veem a nós humanos como se fôssemos espíritos canibais – pois os matamos e comemos.

E o que é o humano?

É essa capacidade de socialidade. Antes, tudo era transparente a tudo, os futuros animais e os futuros humanos, vamos chamar assim, se entendiam, todos se banhavam num mesmo universo de comunicabilidade recíproca. Lévi-Strauss tem uma definição muito boa, dada numa entrevista. O entrevistador pergunta: “O que é um mito?”. Lévi-Strauss responde: “Bom, se você perguntasse a um índio das Américas, é provável que ele respondesse: ‘Um mito é uma história do tempo em que os animais falavam’”. Essa definição, que parece banal, na verdade é muito profunda. O que ele está querendo dizer é que o mito é uma história do tempo em que os homens e os animais estavam em continuidade, se comunicavam entre si. Na verdade a humanidade nunca se conformou por ter perdido essa transparência com as demais formas de vida, e os mitos são uma espécie de nostalgia da comunicação perdida.
Essa é de fato uma noção universal no pensamento ameríndio, a de um estado originário de coacessibilidade entre os humanos e os animais. As narrativas míticas são povoadas de seres cuja forma, nome e comportamento misturam atributos humanos e não humanos, em um contexto de intercomunicabilidade idêntico ao que define o mundo intra-humano atual. O propósito da mitologia, com efeito, é narrar o fim desse estado: trata-se da célebre separação entre “cultura” e “natureza” analisada nas Mitológicas de Lévi-Strauss. Mas não se trata aqui de uma diferenciação do humano com base no animal, como é o caso em nossa mitologia evolucionista moderna. A condição original comum aos humanos e animais não é a animalidade, mas a humanidade. Os mitos contam como os animais perderam os atributos herdados ou mantidos pelos humanos; os animais são ex-humanos, e não os humanos ex-animais. Se nossa antropologia popular vê a humanidade como erguida sobre alicerces animais, normalmente ocultos pela cultura – tendo outrora sido “completamente” animais, permanecemos, “no fundo”, animais –, o pensamento indígena conclui ao contrário que, tendo outrora sido humanos, os animais e outros seres do cosmo continuam a ser humanos, mesmo que de modo não evidente.

Se tudo está impregnado de humanidade, quais são as consequências disso para o modo de vida indígena?

Se tudo é humano, nós não somos especiais; esse é o ponto. E, ao mesmo tempo, se tudo é humano, cuidado com o que você faz, porque, quando corta uma árvore ou mata um bicho, você não está simplesmente movendo partículas de matéria de um lado para o outro, você está tratando com gente que tem memória, se vinga, contra-ataca, e assim por diante. Como tudo é humano, tudo tem ouvidos, todas as suas ações têm consequências.






segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Salgada Realidade




Um típico exemplar da espécie humana,
o único bicho que constrói sua própria gaiola


sábado, 22 de janeiro de 2011

Mares

Posso dizer que hoje tive meu batismo de sangue no jornalismo. Às 7 e pouca da manhã recebi 1 pauta, 2 mortes, em Stella Maris - terra sem lei, como nos westerns italianos, bem lembrados pelo motorista Florisvaldo. Um pai morto na porta de casa, após reagir a um assalto, no qual o filho fora abordado por 4 homens. Reagir, o problema e a solução. Talvez, se ele não tivesse uma arma, todos estariam vivos para outro tipo de reação, como pressionar o poder público junto com os vizinhos, por exemplo. Mas, ao ver o filho sendo ameaçado, quem saberia da própria reação?! As armas, joguem fora suas armas, abram as portas das suas casas, deixem os ladrões entrarem. E ontem mesmo eu - não eu, o poema, que sou eu, mas não sou eu como eu sou - perguntava se deus chorava ou Deus mijava quando chovia. E hoje ele chorou. Depois da chuva dos familiares, pancadas, a cada filha que chegava. Depois do sangue descer as escadas até a rua. Depois dos homens levarem os corpos, quando a vizinha já lavava a calçada dispersando o vermelho, Deus chorou. Chorou uma chuva fina, ao meio dia, avisando que a vida continua. E que ele também sentia.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Co.luna Ver.te.brada

Isso que vc acabou de começar a ler é um protótipo de uma nova sessão do VeículoVoador. Tenho pensado que isso aqui voa precisando de uma reformulação mais séria, e agora que eu tenho mais tempo (um pouquinho só a mais, mas já faz diferença) vou tentar dar um upgrade no espaço. E essa é uma das primeiras (des)medidas.


E aí, vc prefere um carro ou uma conta no Facebook? No começo eu achei que o cara tava meio maluco, mas pensando em termos de países desenvolvidos, dá pra ponderar sim. Passei um tempinho nos states e acho que lá alguém poderia ficar indeciso para responder. E alguém poderia escolher o Facebook. E talvez esse alguém seja mais alguéns do que eu e você pensamos, com nossas cabeças de brasileiros sem transporte público. E daí eu penso: taí como a gente - nós e eles - podemos pensar bem diferente. A propósito, eu escolheria o carro sem pestanejar. E por falar em meio de transporte, aqui na Bahia tem gente com medo de elevador, e eu, que sou vascaíno, é que tive que dar o diagnóstico. Enquanto isso, porém, na Associação de Roteiristas (AR), o bafafá é outro. Ou o bafafá é o outro, ou o inferno são os outros e etc e tal. A questão é que estão decidindo como ficará a classificação indicativa, aquela regra do governo que diz o que é ou não indicado para tal e tal idade e em que horário, e daí que entrou na discussão também o beijo gay e daí... (já viu?) então volte ao link e leia. Como isso é um protótipo, protoatípicamente pensado na hora, vou ficando por aq, assim, tão súbito que te assusta. Até porque esse negócio de impasse na atual poesia brasileira não interessa a quase ninguém mesmo, e eu nem acabei de ler ainda.

Bye bye, buenos aires.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Eleições vistas de longe

Se os pobres (e nordestinos, e fudidos, e sem instrução) foram a parcela da população que elegeu Dilma, eles estão mais que certos. Afinal de contas, estão apostando num tipo de governo que os tem tirado da pobreza há 8 anos, com medidas desde o bolsa família, emergências, até a facilitação do ingresso nos cursos superiores, por via de financiamentos e aumento no número de federais. E não era de se esperar o contrário do governo Lula nem dos resultados disso, afinal de contas, a esquerda sempre defendeu e colocou em prática bandeiras mais sociais do que a direita (ainda que tenha adotado práticas políticas muito infelizmente bem parecidas), e o povo pobre não é burro como se pensa e, em todo caso, percebeu a melhoria e aprovou. Agora, se a direita quer conquistar esses votos, os votos dos pobres, a receita é simples, embora possa parecer contraditória: torne-os menos pobres.

E é um orgulho imenso ter uma mulher tomando conta do país. Visto que no Brasil só aumenta o número de famílias sustentadas por mulheres, acho que é a vez delas. Como disse o amigo James Martins, paradorando Nelson Rodrigues: "... dias mulheres virão!". Eu espero que sim.


Errata: eu falei de Nelson Rodrigues, mas coloquei a frase errada do poema do James, ainda que a que está aí seja de fato a que eu queria usar. A certa é "toda nudez será castidade", que brinca com "toda nudez será castigada". E eu percebi o erro vendo a revista Sexy da Geisy Arruda, vejam só... Raiai ai... essas mulheres...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Sobre Poesia



"Desde o ano anterior, quando ganhara a medalha de ouro em Toronto, Artur se tornara o mais valioso integrante da equipe olímpica brasileira. Estava tudo acertado para viajarem para a Índia, sede das Olimpíadas de 1996, quando, poucos dias antes do embarque, ele avisou que não ia. Instalou-se a crise. O Brasil provavelmente deixaria de ganhar mais um ouro - e até então só conquistara cinco, incluindo o dele. O comitê organizador, do qual faziam parte matemáticos influentes, pressionou, mas Artur não transigiu. A equipe teve de partir desfalcada.


Entre o Canadá de 1995 e a Índia 96, algo muito importante havia acontecido: ele entrara no Impa. "Não tinha ideia do que era fazer matemática. Olhei e disse: é isso." A competição não lhe agradava mais. "Lá tudo tem solução, e a graça da matemática é a incerteza: você pode gastar anos lutando contra alguma coisa que talvez nunca se resolva." A pressa também o incomodava. Matemáticos não precisam tomar decisões urgentes e nenhum deles é forçado a provar uma conjectura até o fim do mês. "Matemática é feita com tempo, não existe a pressão. E eu gosto de refletir", diz Artur. "

Eu nunca poderia imaginar que Matemática avançada e poesia tinham tanto em comum... E pensar que eu já fui bem bom em Matemática...

Da matéria de João Moreira Salles na revista Piauí, Artur tem um problema

+

"O que serve para a vida é banal e chato", disse Hardy, num livrinho clássico de 1940 intitulado Em Defesa de um Matemático


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Z: suspeitas sobre o Cinema e a Política em Costa-Gavras



Z
é um filme político como todos o são, diria Costa-Gavras. Ele mesmo argumenta, em sua recente passagem pelo Brasil, em uma entrevista à Folha de São Paulo, que “como dizia [o escritor e semiólogo francês] Roland Barthes, todos os filmes são políticos ou podemos analisá-los politicamente”. Não há o que negar e nem é interessante aqui discutir a afirmação; também não se pode refutar, porém, que o tema é o grande paradigma na cinematografia do diretor, que filmou, dentre outros, A Confissão (1970), Estado de Sítio (1973) e Amém (2002), filmes de alto teor político. O que se mostra importante em Z (França, 1969), ganhador de 2 Oscars além de nove outros prêmios e considerado a obra-prima do cineasta, é ir além da óbvia constatação de sua função política. “Todo cinema é político, mas também espetáculo”, diria Costa-Gavras. Torna-se significativo, então, analisar com quais artifícios a temática é construída, de quais instrumentos do espetáculo cinema Costa-Gavras faz uso para penetrar nas entranhas de assunto tão espinhoso, e como as opções do diretor deixam clara sua convicção, ou seja, qual seu “lado” na questão do filme.

A
fita, que chegou a ser proibida no Brasil quando foi lançada, é inspirada no romance homônimo do escritor grego Vassilis Vassilikos e no regime militar ocorrido na Grécia nos anos 60. Z conta a história de um crime político, o assassinato, pelas mãos dos primos Vago e Yago, de um popular deputado de esquerda durante uma manifestação e sua investigação por parte de um juiz (que no filme age como um promotor, nos moldes brasileiros) enquanto as forças armadas fazem de tudo para encobrir o fato e os verdadeiros culpados. Com estilo simples e direto, de narrativa predominantemente clássica, Costa-Gavras costura sua trama sem ambigüidades significativas para o enredo. As escolhas do filme são tão absolutas, que não há como não supor refletirem o posicionamento do próprio diretor diante da problemática do filme. À medida que a história se desenrola, fica claro não só o que está acontecendo, mas também o lugar de fala e papel que cada personagem desempenhará no decorrer da película.

A
construção dos lados antagônicos ocorre de forma muito bem delineada, como raramente acontece no jogo político real. O diretor constrói seu filme quase como um jogo entre duas equipes. Do “lado do bem”, e o maniqueísmo, nesse caso, não é reducionista, o deputado, cujas qualidades - “ex-campeão olímpico, médico, professor universitário e político honesto” - não tardam a serem enumeradas por outro personagem importante, o jornalista, oportunista, mas também honesto e comprometido com o fato, acima de tudo, custe o que custar (negativamente falando, inclusive, mas o que não chega a abalar sua moral), além dos companheiros políticos do deputado, todos bons moços de carteirinha, cara limpa e dispostos a tudo para defender seu líder e sua causa. Do “lado do mal”, vale a mesma ressalva anterior, um bando de militares com rompantes de megalomania, discurso claramente fascista e antiquado, majoritariamente de bigodes ou carecas (uma delas mostrada em primeiríssimo plano logo no começo), ou homens humildes, grosseiros e manobráveis, sem muitos escrúpulos, dentre eles Yago, um dos personagens de mais destaque, um cínico psicopata, pedófilo e repugnante. Essa distinção facilita para o espectador não só o entendimento do enredo, mas também indica logo de cara para qual lado deve-se dirigir a torcida.

“N
inguém vai ver um filme como quem vai ter uma aula na universidade ou ouvir um discurso num comício político. As pessoas vão para amar, odiar, chorar etc., sentimentos importantes que definem a nossa vida.”, diz Costa-Gavras na já referida entrevista. E, para além dos personagens, os demais aspectos de Z são construídos para levar o espectador exatamente onde deseja o diretor, a sentir e a tomar partido. Não através de truques banais, mas por um trabalho orquestral que segue um propósito em nenhum momento disfarçado, em que as reviravoltas surgem naturalmente enquanto o fato em si, mas ganham proporções maiores através do uso do suspense e da ação. Assim sendo, a trilha sonora, apesar de econômica, entra sempre em momentos pontuais, como a perseguição de um partidário do deputado por um carro que tenta atropelá-lo ou a tensão da luta entre Yago e outro dos partidários do deputado, na carroceria de uma caminhonete, dirigida por Vago, o outro comparsa, logo depois do crime, momento em que a luz também varia, entre claros e escuros, aumentando ainda mais a ansiedade, apesar de manter-se bem realista em grande parto do filme, privilegiando a luz difusa.

Os
maiores esmeros estéticos e fugas do convencional, não necessariamente conjugados, ficam por conta da montagem e dos planos, e da construção peculiar, entre os personagens, da figura do juiz. Em primeiro lugar, a montagem faz uso de alguns flash backs, em forma de lembranças, que entram em cena sem preparação e que não causam nada além de leves suspeitas e ambigüidades sobre a vida pessoal do deputado, mas se revelam, no entanto, insignificantes no decorrer da trama. Além disso, no começo, privilegia personagens que ficam em segundo plano com o desenrolar dos fatos, talvez sugestionando que, à parte a importante divisão entre bem e mal, todos são apenas peças iguais, sujeitos a tudo dentro do jogo político. No que diz respeito aos planos, em muitos momentos eles querem dizer algo mais que a simples enumeração de temas necessários à narrativa, significando através do enquadramento e dos movimentos, jogando junto com a música e montagem. Um exemplo é o início, em que as diversas insígnias dos militares em primeiríssimo plano servem aos créditos iniciais e parecem prenunciar a força dos métodos fascistas de controle da situação e do poder, independentemente do que vier.

O
grande momento do filme, entretanto, vem sendo forjado desde o início, com a aparição do juiz quase despercebido logo no décimo minuto de filme, na cena em que os partidários do deputado vão ao Procurador em busca de defesa contra ameaças à vida do político. O personagem que chega aparentemente sem nenhuma importância no espaço fílmico e some até reaparecer para tomar conta da apuração do crime é a grande sacada de Cost-Gavras, até o seu desembocar na sequência mais espetacular e magistral , a da intimação dos envolvidos. A frieza e racionalidade com a qual o juiz é arquitetado, cuja feição e autoridade são inabaláveis, e a condução da investigação indubitavelmente insuspeita, faz que ele represente quase que a justiça personificada. Numa extrapolação mais subjetiva, até mesmo seus inseparáveis óculos, levemente escuros, remetem à venda, que representa a isenção e a imparcialidade, na estátua da justiça. Apesar de todo tipo de barreiras que são criadas à investigação e ao cabo dela, o juiz, que não tem nome, como a maioria dos personagens que têm funções institucionais, vai até o fim e indicia um por um dos acusados.

A
pós o indiciamento dos “peixes pequenos”, cada militar entra no tribunal com um plano fechado em suas insígnias e à medida que andam, tentando manter a pose, mesmo que claramente acuados, a câmera faz um movimento para trás, mostrando o advogado que acompanha cada um e a pequena multidão de fotojornalistas tirando fotos. Ao sentarem à mesa do juiz, cara a cara com a justiça, uns ameaçam suicídio, berram, esperneiam, mas ouvem apenas uma pergunta: “nome e sobrenome?”, além do indiciamento. É nesse momento em montagem, planos e música unem-se de forma mais simbólica, num ritmo frenético em que a máquina de escrever e seu barulho característico ganham cena e formam com a música uma só sinfonia, quase um videoclipe em que se alternam planos do juiz, da máquina, dos militares e dos jornalistas. Sem contar na piada, no momento em que o juiz indica uma porta supostamente alternativa aos militares, para que não voltem a passar pelos jornalistas durante a saída, mas que, em verdade, também está fechada, obrigando-os a voltar por onde entraram, a passarem novamente pelos flashes e exposição pública. É quando Costa-Gavras lava a própria alma e a de quem o assiste.

A
pesar da pequena vingança, o diretor não doura a pílula mais que os limites da realidade na qual acredita. O filme se encerra com penas brandas aos culpados e com a tomada de poder por parte dos militares, que da morte ao exílio acaba com um por um dos “combatentes” do bem e sanciona o cerceamento total de liberdade. Sem abrir mão das possibilidades que o cinema – inclusive e principalmente o de espetáculo – oferece, Costa-Gavras dá, com sua premiada obra-prima, mais um passo em sua luta política, honesta e aberta na predileção pelo tema e pela forma clara de tratá-lo. “A revolução social vai depender de seus líderes, da capacidade de impor suas ideias e de como cada um vai reagir a elas”, disse também à Folha. No cinema que Costa-Gavras faz em Z (que significa ele vive), não há dúvidas sobre quais são as armas e métodos do combatente, e que a liberdade é não apenas meta, mas também caminho, independentemente de rótulos ou julgamentos.




*Crítica que escrevi há algum tempo, numa matéria da faculdade. Em breve, mais duas críticas, escritas esse ano.

 
Creative Commons License
Veículo Voador by Álvaro Andrade is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at veiculovoador.blogspot.com.